Nova arqueia, batizada de Pyroantarcticum pellizari, foi identificada por equipe do Instituto de Oceanografia da USP em fissuras vulcânicas na Antártica, sobrevivendo perto de 100 °C. Seguindo dados do IO-USP, é a primeira vez que uma arqueia é registrada na superfície de ambiente polar, expandindo o entendimento sobre resistência de organismos unicelulares a condições extremas. O levantamento foi conduzido em fumarolas, locais onde gases vulcânicos escapam do solo, e revelou colonização pontual apenas nas áreas mais quentes. O estudo ocorreu integralmente sob liderança feminina e marca presença brasileira na pesquisa polar.
O IO-USP confirmou que o sequenciamento genético foi realizado a partir de amostras coletadas em temperaturas variando de 0 °C a 100 °C, permitindo análise comparada dos microrganismos e identificação de genes responsáveis pela tolerância a calor e gases tóxicos. As arqueias são reconhecidas internacionalmente por desempenharem papel essencial na compreensão dos possíveis limites para a vida terrestre, principalmente por sua habilidade de gerar energia a partir de substâncias químicas do ambiente, dispensando a luz solar.
Segundo as normas da pesquisa antártica brasileira, coleta e manipulação de organismos seguem protocolos do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), o que garante rastreabilidade das amostras e proteção ao ecossistema local. Não houve registros prévios desse tipo de arqueia fora de ambientes marinhos profundos, demonstrando alteração significativa no panorama biogeográfico desses microrganismos em 2026.
A descoberta reforça as conexões entre estudos antárticos brasileiros e pesquisas em astrobiologia. O fato de seres vivos persistirem sob altas temperaturas e exposição a gases potencialmente letais sugere caminhos para investigações sobre vida em outros planetas, principalmente em regiões com características semelhantes às fumarolas vulcânicas.
Implicações da descoberta para a astrobiologia
A presença da Pyroantarcticum pellizari junto a aberturas vulcânicas na superfície polar indica uma possível analogia com ambientes extremos de outros corpos celestes, como Marte ou luas de Júpiter. O padrão genético identificado na investigação realizada pelo IO-USP poderá servir de base comparativa em futuras análises de solos extraterrestres, principalmente por permitir mapear adaptações biológicas ligadas à sobrevivência sem aporte solar e diante de calor intenso.
Em contextos globais, a identificação dessa nova arqueia amplia a representatividade científica do Brasil e valida o protagonismo de mulheres pesquisadoras em missões de campo polares — aspecto reconhecido como fundamental para a inovação em ciências ambientais. Dados complementares disponíveis em gov.br/CNPq/PesquisaAntartica detalham o investimento anual no setor, que, desde 2020, dobrou em recursos destinados ao mapeamento biológico extremo.
Perfil das arqueias e comparação com outras descobertas
As arqueias estão entre os seres mais primitivos da Terra e, até recentemente, só haviam sido observadas em sedimentos oceânicos profundos. Segundo o CNPq, a diversidade genética desse grupo ajuda a precificar a resiliência biológica a partir do metabolismo quimiolitoautotrófico — isto é, conversão de energia com base em reações químicas inorgânicas. Em descobertas anteriores, organismos similares já haviam sido localizados em fontes hidrotermais submarinas, mas esta é a primeira vez registrada em temperatura próxima ao ponto de ebulição em superfície polar.
O nome científico escolhido, Pyroantarcticum pellizari, homenageia Vivian Pellizari, pioneira nacional em ecologia microbiana extrema. Tal reconhecimento reforça a integração dos resultados brasileiros em debates internacionais sobre limites da habitabilidade e potencial da vida em ambientes considerados inviáveis há poucos anos.