O levantamento da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) aponta que a extinção da escala 6×1 impactaria diretamente nos custos, produtividade e prazos de obras no setor da construção civil, afetando 88,5% das empresas quanto ao aumento dos encargos de mão de obra. O estudo se baseia em dados nacionais e concentra-se no efeito de uma eventual redução da jornada semanal obrigatória em todo o país. Nesta hipótese, o mercado sinaliza o risco de aumento expressivo nas despesas para construtoras e repasse ao consumidor final. O relatório destaca ainda que, sem uma revisão proporcional dos salários, 45,3% das companhias preveem possível retração nas novas contratações. No histórico recente, mudanças trabalhistas demandaram períodos de transição para adequação das rotinas e contratos de trabalho.
Principais alterações e impactos previstos
Segundo a CBIC, o principal desafio recai sobre a necessidade de ampliar equipes, já que 73,9% consideram insuficiente apenas reorganizar os horários internos para manter a produção. Essa demanda por contratação adicional decorre da limitação na jornada, tornando inviável a compensação sem aumento real de funcionários. O órgão também observa que contratos em andamento, principalmente em obras públicas, sofreriam revisões de custos e prazos, já que a produtividade depende largamente da disponibilidade qualificada de mão de obra.
Haveria aumento considerável nos custos repassados ao preço final dos imóveis ou serviços, atingindo 84,6% das empresas consultadas. Do lado do consumidor, os efeitos seriam percebidos de forma imediata, com risco de atraso na entrega das obras e elevação dos valores comercializados no mercado imobiliário. Para contextos municipais e regionais, esta elevação impactaria tanto projetos habitacionais populares quanto empreendimentos privados.
Questões de formalidade e empregabilidade
A entidade aponta que 78,6% dos respondentes enxergam maior probabilidade de avanço da informalidade caso a reforma seja implementada sem ajustes salariais proporcionais. Esta realidade gera preocupação quanto ao vínculo formal de emprego e à segurança jurídica, pois o risco é reunir equipes contratadas fora do regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Segundo o Banco de Dados do Ministério do Trabalho, a construção civil é um dos setores historicamente mais expostos à rotatividade e à informalidade, fatores que dificultam a fiscalização e o controle de qualidade.
Um dado adicional é que 81,6% das empresas perspectivas para prazos de entrega mais longos, exigindo modificações em cronogramas e possíveis penalizações em contratos já firmados, principalmente nas grandes cidades e projetos públicos que dependem de prestação de contas periódicas.
Comparativo com regras anteriores
Historicamente, a escala 6×1 foi utilizada para garantir alternância de folgas semanais, combinando produtividade com descansos mínimos previstos em lei. Mudanças anteriores na legislação, como a Reforma Trabalhista de 2017 (Lei 13.467), permitiram negociações mais flexíveis sobre jornadas, mas sempre condicionadas à garantia de direitos básicos e à prevenção de impactos negativos na cadeia de produção. Ao comparar com o atual debate, a CBIC reforça que a simples extinção da 6×1 exigiria rediscussão ampla sobre salários, mecanismos de compensação e contratos administrativos.
No contexto da agenda nacional de emprego formal e crescimento econômico, o setor atua como motor relevante para o Produto Interno Bruto. Projeções recentes da própria CBIC destacam redução da estimativa de crescimento do segmento em 2026 de 2% para 1,2%, justificando esse ajuste pela incerteza sobre o futuro da jornada e as potenciais consequências para novos investimentos e geração de postos de trabalho.
PIB da construção civil: reflexos do debate sobre jornada
A discussão sobre o fim da escala 6×1 na construção civil ultrapassa o debate setorial e se entrelaça com metas públicas para retomada do crescimento econômico. O cenário ainda aguarda maior definição legislativa, mas já provoca reavaliação de estratégias por parte das empresas e alerta para possíveis efeitos em cadeia para o setor e consumidores finais.