A Polícia Federal passou a investigar a advogada e influenciadora Deolane Bezerra Santos por suspeita de participação em um esquema de lavagem de dinheiro que pode ter movimentado cerca de R$ 1,6 bilhão. A Operação Narco Fluxo, deflagrada em abril de 2026, resultou na prisão de nomes conhecidos do funk e das redes sociais, como MC Ryan SP, MC Poze do Rodo e o criador da página Choquei.
Segundo as apurações, entre maio e junho de 2025, a conta vinculada a Deolane registrou movimentações de aproximadamente R$ 5,3 milhões, incluindo recebimento de R$ 430 mil da produtora de MC Ryan SP e pagamentos superiores a R$ 1,1 milhão para uma empresa de veículos. O relatório de inteligência aponta que a conta da influenciadora funcionava como “conta de passagem”, mecanismo utilizado para dificultar o rastreamento de valores.
Relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) indicaram que Deolane recebeu transferência de Francisca Alves da Silva, conhecida como “Pretinha”, esposa de Alejandro Herbas Camacho Júnior, irmão de Marcola, líder do PCC. Documentos da Ficco/CE já identificavam, em outubro de 2023, que “Francisca é amiga próxima da advogada Deolane Bezerra”.
Histórico de investigações contra a influenciadora
Deolane ganhou notoriedade após ser presa preventivamente na Operação Integration, deflagrada contra jogos ilegais e lavagem de dinheiro pela Polícia Civil de Pernambuco em 4 de setembro de 2024. Além dela, a mãe Solange Bezerra foi detida e 17 outros mandados de prisão foram executados em diferentes estados, com apreensão de carros de luxo, imóveis, aeronaves e bloqueio de R$ 2,1 bilhões em ativos financeiros.
Outra linha investigativa apura a relação de Deolane com o PCC, iniciada após a prisão de Everton de Souza, o “Gordão”, membro da facção, em um apartamento pertencente à influenciadora no Tatuapé, em 2021, quando ele foi encontrado com arma e drogas.
Em fevereiro de 2026, a Justiça Federal de Pernambuco declarou nulos os atos da Operação Integration conduzidos pela Justiça Estadual, determinando que a Polícia Federal assumisse as investigações e reavaliasse todo o material produzido.
Vínculos com figuras do crime organizado
Segundo dados do Coaf, Francisca Alves da Silva realizou transferências diretas para a conta de Deolane — Francisca é cunhada de Marcola, líder da maior facção criminosa do país. Conhecida como “Preta” pelos criminosos, ela está presa desde abril de 2024 na Penitenciária Feminina de Santana, em São Paulo, sendo considerada peça fundamental na estrutura de lavagem de dinheiro da organização.
Em fevereiro de 2024, o nome de Deolane foi ligado a Thiago da Silva Folly, o “TH da Maré”, após ela surgir nas redes sociais usando um cordão de ouro avaliado em cerca de R$ 200 mil que pertenceria ao então chefe do tráfico no Complexo da Maré. A Polícia Civil do Rio de Janeiro abriu inquérito para apurar esse episódio.
Defesa e posicionamentos da influenciadora
Em entrevistas anteriores, Deolane justificou sua relação profissional com integrantes de facções ao afirmar que “advogo para pessoas e não para uma facção” e que “um advogado criminalista em São Paulo não tem como afirmar que nunca advogou para um membro do PCC”.
Sobre as transações com MC Ryan SP, Deolane declarou em suas redes sociais que o valor recebido seria referente à venda de um veículo: “Eu vendi um carro para o Ryan. Ele me deu um outro carro mais barato na troca e um outro valor a ser depositado na minha conta bancária”.
Mesmo sob investigação, a influenciadora continuou negando qualquer irregularidade, enquanto sua defesa alegava perseguição e abuso de autoridade nas ações contra ela e sua família.
Operação Narco Fluxo e desdobramentos
A Operação Narco Fluxo é considerada desdobramento de investigações anteriores, como Narco Vela e Narco Bet, que já apuravam o uso de estruturas empresariais e apostas para ocultar recursos do tráfico internacional de drogas. Segundo a PF, há indícios de que a organização tenha ligação com o envio de mais de três toneladas de cocaína para fora do país.
Cerca de 200 agentes federais participaram da ação, cumprindo 33 mandados de prisão temporária e 45 de busca e apreensão em oito estados, além do Distrito Federal. Relatórios apontam que contas ligadas à influenciadora teriam sido utilizadas para movimentações rápidas típicas de “conta de passagem”, dificultando o rastreamento financeiro.




