Imagine entrar na aeronave, acomodar-se e descobrir que, para reclinar o assento, será preciso abrir a carteira. A proposta, divulgada em 17 de outubro de 2025 por uma grande companhia de baixo custo operando no Brasil, pegou muitos passageiros de surpresa e acendeu o debate sobre o limite das chamadas tarifas auxiliares. De um lado, a empresa alega necessidade de “customizar” o serviço; de outro, órgãos de defesa do consumidor enxergam mais um custo camuflado na passagem. Entenda, a seguir, por que essa decisão foi tomada, quanto custará, quais os impactos no conforto e no bolso e, principalmente, como o viajante pode se proteger.
Por que a empresa decidiu cobrar para reclinar o assento?
Segundo comunicado oficial, a cobrança para reclinar o assento faz parte de uma estratégia de “precificação segmentada”. A companhia afirma que:
- Mais de 60 % dos clientes já voam na posição vertical durante rotas curtas.
- A manutenção dos mecanismos de inclinação representa 8 % do custo anual de cabine.
- A receita acessória cresceu 22 % ao separar itens antes inclusos, como bagagem de mão maior.
Em entrevista, a diretora de produtos, Mariana Duarte, declarou:
“Queremos que o passageiro pague apenas pelo que realmente usa. Quem optar por voar sem inclinar não subsidia o conforto de quem deseja a função reclinável.”
Já associações de turismo alertam que a prática pode espalhar-se rapidamente, já que outras companhias monitoram os resultados. A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) informou que, até o momento, não há impedimento regulatório, desde que o preço seja divulgado de forma transparente.
Quanto vai custar e como será cobrada a nova taxa extra
A tarifa estreará em fases, começando por rotas domésticas de até três horas:
- Compra antecipada no site ou app: R$ 15 por trecho.
- Adição no check-in online: R$ 20.
- Pagamento no aeroporto: R$ 25, sujeito à disponibilidade.
O valor refere-se ao direito de reclinar o assento durante todo o voo. Estranhamente, quem escolher não pagar viajará em poltronas travadas em ângulo fixo de 90 graus. Cabines premium e saídas de emergência permanecem com reclinação liberada, pois já possuíam tarifa diferenciada.
A cobrança é feita por passageiro e por trecho, ou seja, conexões multiplicam o custo. Um itinerário São Paulo → Salvador com escala em Belo Horizonte, por exemplo, poderá gerar duas cobranças, somando R$ 30 a R$ 50.
Impacto para o passageiro: conforto x preço
A repercussão online foi imediata. Nas redes sociais, viajantes reclamaram que a novidade reduzirá o bem-estar, sobretudo em voos noturnos. De acordo com pesquisa rápida do Instituto DataFly, realizada com 2 000 respondentes:
- 78 % consideram a reclinação indispensável em viagens superiores a duas horas.
- 55 % avaliariam trocar de companhia para evitar o custo.
- Apenas 12 % pagariam a taxa “sem pensar duas vezes”.
Do ponto de vista ergonômico, ortopedistas alertam que a posição completamente ereta por períodos prolongados aumenta a pressão lombar e pode causar desconforto. Contudo, especialistas em aviação lembram que a possibilidade de reclinar o assento também gera atritos entre passageiros, principalmente em fileiras apertadas. Ao transformar o recurso em serviço pago, a empresa argumenta que reduzirá conflitos a bordo, pois apenas quem valoriza o conforto optará pela inclinação.
No bolso, o efeito final dependerá do perfil do viajante. Quem já paga por bagagem despachada, marcação de assento e refeição terá aumento médio de 7 % na tarifa total. Já o passageiro “ultra-econômico”, que abre mão de extras, continuará pagando o valor básico, porém sujeitando-se ao encosto fixo.
O que diz a legislação e como reclamar
Até o momento, nenhuma norma proíbe a cobrança por reclinar o assento. A Resolução 400/2016 da ANAC exige apenas transparência na oferta de serviços opcionais. Isso significa:
- O preço deve aparecer de forma clara antes da conclusão da compra.
- O passageiro não pode ser induzido a adquirir o extra por pré-seleção automática.
- Informações sobre reembolso ou alteração precisam estar acessíveis.
Caso a empresa descumpra essas obrigações, o consumidor pode:
- Registrar queixa no site Fale com a ANAC.
- Procurar o Procon local com comprovantes de compra.
- Usar a plataforma Consumidor.gov.br para resolver o conflito diretamente com a companhia.
Em situações nas quais o encosto travar indevidamente apesar do pagamento, o passageiro deve solicitar a regularização a bordo e registrar ocorrência no Relatório de Irregularidade (PIR) ao desembarcar.
Estratégias para voar sem pagar a mais
Para quem deseja manter o orçamento enxuto, é possível contornar a nova taxa. Veja algumas dicas práticas:
- Reserve fileiras especiais: poltronas na primeira fila e nas saídas de emergência costumam incluir reclinação e espaço extra já no preço.
- Use cartões de crédito parceiros: muitas vezes, pontos ou milhas podem ser trocados por serviços auxiliares, inclusive o direito de reclinar o assento.
- Aproveite status no programa de fidelidade: categorias superiores oferecem extras gratuitamente.
- Considere voos noturnos com concorrentes: outras empresas ainda oferecem reclinação sem custo adicional.
- Leve suporte lombar portátil: almofadas infláveis ou travesseiros de espuma melhoram a postura e amenizam a falta de inclinação.
Por fim, acompanhe a evolução do mercado. Se a medida aumentar a receita da companhia, é provável que concorrentes adotem prática similar. Portanto, comparar preços e benefícios tornará-se ainda mais importante na rotina de quem viaja.