Fronteiras fechadas, embarcações à deriva e xenofobia: Uma análise sobre as migrações durante a pandemia.

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A mobilidade da população pelo espaço é um dos processos mais antigos da humanidade, é possível afirmar que os deslocamentos populacionais são mais antigos do que a fala e a escrita. Os primeiros seres humanos migravam basicamente em busca de alimento, ou fugindo das intempéries da natureza, posteriormente o homem passou a migrar para ampliar suas relações de troca (comércio), por conta de guerras, epidemias e uma série de outros fatores.

Hoje, mais do que em qualquer outra época, os seres humanos se deslocam pelo espaço em número e em velocidade cada vez maior, dado o avanço dos meios de transporte e comunicação. No entanto, diante do quadro de pandemia, os fluxos migratórios sofreram grande restrição, o comércio está fechado em muitos países, e as viagens internacionais foram reduzidas para evitar o avanço da pandemia. Sendo assim, por que falar em migração diante do cenário atual?

Existem muitos imbróglios migratórios ao redor do mundo, que acabam gerando conflito diplomático, apelo humanitário e xenofobia, principalmente quando se refere à questão dos refugiados, que segundo estimativas forma um grupo de mais de 80 milhões de indivíduos ao redor do mundo, que ainda tentam uma vida mais digna fora do seu país de origem. A deflagração da pandemia reduziu a circulação de pessoas, não apenas de um país para outro, mas principalmente dentro do mesmo território, e é justamente por isso que é preciso ter o cuidado de não esquecer que milhões de pessoas de forma forçada ainda estão em processo migratório.

A pandemia abriu espaço para que muitos países fechassem suas fronteiras, como uma medida sanitária para evitar a propagação da Covid-19. Mas por outro lado impediu que milhares de imigrantes conseguissem chegar até o seu destino, ficando assim no meio do caminho e formando grandes aglomerações em campos de refugiados. Essas pessoas vêm da Síria, da Líbia, do Sudão, da Eritréia e de diversos outros países. Impossibilitados de entrar na Europa por conta da pandemia, muitos desses imigrantes também não conseguem voltar aos seus países de origem.

A situação desses refugiados se torna ainda mais grave diante da crise atual que o mundo atravessa, para muitos desses imigrantes já era difícil contar com assistência médica-sanitária em seus respectivos países, o desafio de ter acesso a medicamentos e materiais de higiene é ainda maior para quem vive em campos de refugiados. Segundo dados da OMS, 5% das pessoas que vivem em campos de refugiados já podem ter sido contaminados pelo novo Coronavírus, com um pequeno índice de mortalidade entre os infectados. A OMS considera o número baixo diante da situação de insalubridade que muitos desses refugiados enfrentam.

Vale ressaltar que a maior parte dos refugiados no mundo é formada por jovens (crianças) e adultos, e levando-se em consideração que os idosos formam um dos principais grupos de risco no cenário atual da pandemia, essas características podem explicar em parte o baixo número de contaminados e mortos entre os refugiados. É importante salientar, no entanto, que em campos de refugiados existe grande dificuldade de realização de exames que detectam o Covid-19, o que faz com que os dados divulgados pela OMS possam ser questionados.

Outra situação que por conta da pandemia se tornou comum em muitos países é a presença de embarcações à deriva, principalmente em se tratando de navios de cruzeiro, ou seja, passageiros e tripulações inteiras confinadas em navios sem permissão para desembarcar. Portos na Austrália, Brasil, EUA e em diversos países da Europa, se negaram a receber muitas embarcações, que durante a deflagração da pandemia se encontravam em alto mar. Trata-se de uma situação inusitada, muitos países justificam a medida, temendo um avanço da doença em seu território, na maior parte das vezes essas embarcações contam com passageiros de diversas nacionalidades, o que dificulta determinar qual país seria ou não o responsável por receber essas embarcações.

No entanto, uma das grandes preocupações da ONU é o temor pelo aumento dos casos de xenofobia ao redor do mundo. Se antes da pandemia a questão do preconceito, aversão, repúdio e até mesmo violência contra estrangeiros, já fazia parte do cotidiano em muitos países, a situação de incerteza causada por conta do coronavírus pode acirrar ainda mais esses sentimentos. Como ficará a situação das pessoas que vivem fora de seu país de origem onde a doença se alastrou de forma muito rápida, causando um elevado número de mortes, como Brasil e Índia, por exemplo? Muitos países já proibiram a entrada de brasileiros em seus territórios por conta dos números assustadores da pandemia no país.

Outra situação que pode gerar problemas num futuro próximo é a questão da China e seu papel durante a pandemia. Não têm sido incomum observar alguns chefes de estado e pessoas ligadas à extrema-direita, associarem o surgimento do vírus ao país asiático, responsabilizando a China por todas as consequências provenientes da pandemia. É como se diante do problema fosse mais importante identificar o culpado, do que propriamente encontrar soluções. Por outro lado, as acusações direcionadas a China podem acabar afetando sua população, na medida em que muitas pessoas de forma equivocada, podem associar a disseminação do vírus há um possível projeto de “dominação mundial” por parte de Pequim, ou praticar preconceito contra os aspectos culturais dos chineses, aumentando assim as estatísticas de casos de xenofobia.

Todavia, é importante destacar que antes da pandemia China e EUA estavam travando uma intensa guerra comercial, e como em qualquer conflito a utilização de armas não convencionais deve sempre ser considerada, o domínio da informação pode perfeitamente ter sido utilizado como tal arma. Não é segredo que os EUA exercem grande influência na narrativa internacional, praticamente a totalidade dos grandes meios de comunicação do mundo e também das principais redes sociais, tem um perfil ou um discurso pró-Washington, e que invariavelmente são utilizados estrategicamente para atender os interesses estadunidenses.

A xenofobia, e diversas outras questões que envolvem os fluxos migratórios, tiveram grande repercussão midiática na última década, com destaque para a imigração latina para os EUA e de africanos e asiáticos para a Europa. No entanto, o fim da pandemia poderá provocar outras ondas migratórias importantes, tendo em vista que muitos países e regiões do planeta estão empobrecendo (queda no PIB), associado ao fato de que historicamente a questão econômica sempre foi uma das grandes razões dos deslocamentos populacionais, e diante de um cenário ainda incerto, muitas pessoas poderão ser compelidas a mudanças geográficas.

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Professor Jorman Santos:

1 comentário
  1. Isabela Marinho Diz

    A situação está bem complicada, e os imigrantes nesse cenário de incertezas.

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