Filas do auxílio emergencial traduzem uma sociedade destruída. Não pela pandemia, mas pelo Neoliberalismo.

Ou colocamos um fim no neoliberalismo, ou ele passará a ameaçar ainda mais nossa própria sobrevivência.

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Durante a liberação das primeiras parcelas do auxílio emergencial, que visa auxiliar a população que perdeu emprego e renda por conta da pandemia, foi comum e frequente em todo o país, a formação de filas enormes na porta da Caixa Econômica Federal. Esse cenário revela duas questões importantes, a primeira, é que a maior parte da população não tem renda suficiente para se manter por mais de um mês sem remuneração, ou seja, “o mês é mais longo do que a duração do salário”, a outra é que a ideia defendida há mais de 40 anos, de redução dos gastos públicos, corte salarial e desregulamentação da economia, acabou empobrecendo a população e concentrando riqueza na mão de poucos.

Há mais de 40 anos, desde que Margaret Thatcher assumiu o poder no Reino Unido (1979), um receituário de forte conteúdo ideológico, marcado pela defesa dos interesses do sistema financeiro, tomou conta do cenário político internacional. Com a dissolução da URSS em 1991, o modelo neoliberal ficou livre para avançar, com poucas barreiras físicas e ideológicas, os defensores dessa teoria pregavam “Um Mundo Livre”, “A Nova Ordem Mundial”, nesse período o papel do Estado foi reduzido drasticamente, grandes corporações surgiram, formando amplos e poderosos conglomerados financeiros.

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Na América Latina, esse receituário neoliberal, representou a privatização de inúmeras empresas estatais, na área de energia, comunicação, infraestrutura e tantas outras, além de reformas no sistema previdenciário de dezenas de países. O argumento mais usado era afirmar que o estado precisava “se livrar” de inúmeros compromissos, com a desculpa de se tornar mais eficiente e menos caro, a função social do estado de garantir dignidade, segurança, saúde, renda, educação, entre outros, foi duramente criticado e condenado pelos defensores do neoliberalismo.

Desde então o estado se tornou refém dos interesses do mercado, ao mesmo tempo em que defendia menos intervenção estatal na economia (estado mínimo), os neoliberais queriam o estado ao seu serviço, em detrimento dos interesses da maior parte da população. Tem se tornado quase impossível lutar contra esse sistema, basicamente os chefes de governo não conseguem mudar a lógica, tanto faz se é de esquerda, direita ou centro, qualquer tentativa de romper com esse modelo acarretam em boicotes, pressão externa, além da propagação de informações enviesadas na grande mídia.

protesto no Reino Unido com os dizeres: “Enterre este imposto de Thatcher”

Hoje, as imensas filas que são apresentadas na mídia, mostrando pessoas desesperadas em busca de um auxílio do estado para se manter durante a pandemia, revelam um modelo político-econômico que não deu certo. No Brasil em especial, que há 30 anos foi contaminado pelo vírus do neoliberalismo, o governo tem considerado caro demais o auxílio de R$ 600,00 ou R$ 1.200,00 fornecido a população, mas esquece que o estado brasileiro, utilizando dinheiro público financiou centenas de privatizações ao longo das últimas décadas.

Grandes empresas receberam incentivos fiscais para suas instalações e manutenções, entre 2011 e 2018 o governo brasileiro desonerou R$ 458 bilhões em dívidas e impostos dessas mesmas empresas, tudo isso a custa da elevação da dívida pública, redução do poder de compra da população, eliminação de vários direitos trabalhistas e conquistas sociais de décadas. Recentemente a previdência social foi atacada, milhões de pessoas perderam direito há uma aposentadoria decente, ao mesmo tempo em que o mercado especulativo continua ampliando sua margem de lucro.

Onde irão atacar agora, já que grande parcela da população perdeu emprego e está sem renda? Como ainda falar em “livre mercado” onde esse praticamente já não existe? Seria um mercado onde não há espaço para desempregados e sem renda? Diante da pandemia do coronavírus, até os jornais tradicionalmente liberais como o Financial Times e o The Economist questionam a permanência do atual modelo, em virtude do cenário ainda incerto, onde o PIB em muitos países deve cair seguramente em torno de dois dígitos.

Mas é claro que o sistema se molda a situação, foi assim em 2008/2009, na grande crise do capital especulativo, onde as instituições financeiras foram auxiliadas com recursos vultosos do tesouro de muitos países, ao passo que para grande parte da população restou apenas juntar os cacos. No pós-guerra (1945), as conquistas sociais foram consideráveis em diversos países, mas na verdade, se tratava de uma estratégia de enfrentamento aos ideais socialistas, ou seja, o capitalismo precisava se apresentar como uma alternativa melhor e mais viável. Assim, quando ocorre a dissolução do bloco socialista, o ocidente coloca em prática uma série de medidas que reduzem as conquistas sociais da classe trabalhadora, enquanto as instituições financeiras ampliam seus lucros de forma descomunal.

Hoje, Junho de 2020, ao mesmo tempo em que o Brasil atinge mais de um milhão de infectados pela pandemia do Coronavírus, vários governos estaduais estudam medidas de flexibilização do isolamento social, pondo em risco a vida de milhões de pessoas, com a desculpa de que a população precisa trabalhar, pois está sem renda.

Sim, as pessoas precisam trabalhar. Mas a tomada de decisão dos governos estaduais e municipais, com aval do governo federal para flexibilização das medidas de isolamento, não tem como foco uma preocupação com o trabalho e a renda da população. Na verdade, é o sistema financeiro que precisa garantir seus lucros, o pagamento dos juros da rolagem da dívida precisa ser mantido, “Não tem como dar auxílio ao povo e ameaçar uma estrutura de décadas”. Diante do cenário em questão restam duas alternativas: Ou colocamos um fim no neoliberalismo, ou ele passará a ameaçar ainda mais nossa própria sobrevivência.

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Abaixo segue o link de um ótimo E-book, contendo questões inéditas de atualidades.

Professor Jorman Santos:

5 Comentários
  1. Carla Pucharelli Diz

    Texto muito bom! Excelente reflexão!

  2. Isabela Marinho Diz

    Infelizmente quem sofre são os menos favorecidos, que tentam sobreviver nessa selva!
    Com certeza, o que mais assusta é a incerteza nesse cenário de pandemia, não sabemos o que irá acontecer. Triste realidade!!

  3. Rita Marques de Araújo Batista Diz

    Eu acho que todos deviam trabalhar e se cuidar tem como trabalhar e se cuidar

  4. José Alves Diz

    Desde que o mundo é mundo, a política tem culpa na maior fatia desses eventos que ocorrem no mundo. Tudo bem que temos a “obrigação” de votar, e alguém tem que governar, pois do contrário estaríamos à deriva com um regime a “deus-dará”. Mas o cenário de ontem, hj e um provável futuro, a favorecida sempre será a classe dominante, com suas leis e diretrizes explorando os “escravizados” por assim dizer. Triste realidade…!

  5. José Alves Diz

    Desde que o mundo é mundo, a política tem culpa na maior fatia desses eventos que ocorrem em nossa sociedade. Tudo bem que temos a “obrigação” de votar, e alguém tem que governar, pois do contrário estaríamos à deriva com um regime a “deus-dará”. Mas o cenário de ontem, hj e um provável futuro, a favorecida sempre será a classe dominante, com suas leis e diretrizes explorando os “escravizados” por assim dizer. Triste realidade…!

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