Envelhecimento populacional: Uma realidade que assusta a Europa.

O desafio demográfico europeu: Uma questão econômica e estratégica para entender o futuro do velho continente.

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O estudo da população é essencial e estratégico para qualquer país, através das análises demográficas é possível entender o ritmo de crescimento vegetativo, as taxas de natalidade e mortalidade, os aspectos que envolvem as questões migratórias, avaliar a expectativa de vida e uma série de outras ações. Os resultados provenientes do estudo do perfil demográfico de um país podem revelar quantas escolas, hospitais e investimentos na previdência o país irá necessitar para o futuro, mas também, expõe realidades que muitas vezes ficam ocultas atrás dos números.

A Europa é hoje o continente que atravessa o maior desafio demográfico de todo o planeta, principalmente quando se analisa a questão etária na maioria dos países do velho continente. Em nenhum outro local o número de idosos no conjunto total da população é tão elevado quanto na Europa, na maioria dos países europeus a população idosa é mais numerosa do que a de jovens até 19 anos, por outro lado, a expectativa de vida na Europa é a mais elevada entre todos os continentes.

Grande parte dos idosos europeus vive só, essa é uma tendência que tende a aumentar nos próximos anos segundo algumas estimativas.

A condição de vida da população europeia ajuda a explicar em parte essa realidade. Em países onde a população conta com elevado grau de instrução e escolaridade, é comum que a expectativa de vida seja alta, além disso, as condições do sistema de saúde e sanitárias na Europa também são muito boas. Porém, junto com o aumento da expectativa de vida e um incremento do número de idosos no número total de habitantes, as taxas de natalidade estão muito baixas, inferiores a 1,8 filhos por mulher e as estimativas apontam para uma redução ainda maior no futuro.

Quando o número médio de filhos por mulher em um país é inferior a 2,0, a tendência é que ocorra progressivamente uma redução populacional, esse tem sido o grande dilema europeu principalmente na virada do século XX para o século XXI. Muitos países como a Espanha, Portugal e Itália já convivem com um caos no seu sistema previdenciário, cada vez mais o número de beneficiários aumenta, ao mesmo tempo em que a População Economicamente Ativa (PEA – pessoas em idade de trabalhar e contribuir para previdência) diminui.

Pirâmide etária europeia em 2020, nela é possível observar que a expectativa de vida é muito elevada no continente, contudo, as taxas de natalidade são muito baixas, o número de crianças já é inferior ao número de idosos. A tendência é de que essa realidade se acentue ainda mais no futuro.            Fonte: https://www.populationpyramid.net/pt/europa/2020/

O fato é que muitos governos estão associando o caos no sistema previdenciário, à presença elevada de idosos no conjunto total de habitantes em seus países, mas na verdade a análise não é tão simples quanto parece. A justificativa de que um número elevado de idosos prejudica o sistema previdenciário é na verdade um pretexto para promover uma série de reformas, que tem o intuito de empurrar cada vez mais pessoas para previdência privada, e retirar conquistas de décadas da classe trabalhadora.

O que muitas vezes os números escondem, são os motivos que levaram as pessoas a terem menos filhos, essa decisão tem provocado um déficit demográfico, já que o número de pessoas que nasce tem sido inferior ao número de óbitos. A população europeia de uma forma geral tem optado por ter poucos filhos, ou simplesmente não os ter, por questões que envolvem um mercado de trabalho altamente competitivo, onde ter filhos é encarado como um “empecilho” para o crescimento profissional, os custos para se criar um filho nos dias de hoje estão cada vez mais elevados, mesmo para a população europeia onde a renda média é considerada elevada.

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No entanto, um dos principais fatores que tem inibido os casais de terem mais filhos perpassa por uma questão de estabilidade no emprego, ou seja, a taxa de desemprego na Europa vem crescendo muito, ano após ano, Grécia, Portugal, Itália e Espanha, são alguns dos países onde as taxas de desemprego tem se mantido elevadas há mais de uma década. Na Espanha um em cada quatro jovens (até 25 anos) está desempregado. Como pensar em ter um filho, e principalmente mais de um, quando não se tem garantia de que irá permanecer no emprego? Milhões de jovens e adultos estão sobrevivendo com benefícios sociais do governo, pois não encontram trabalho.

Há várias décadas muitas indústrias europeias saíram do continente em direção a Ásia, em busca de mão de obra mais barata e benefícios fiscais, sem falar no intenso processo de mecanização industrial que tem causado um aumento do desemprego estrutural, contribuindo para o agravamento da crise. A partir dessa realidade muitos governos têm investido pesado em estudos demográficos para tentar compreender um pouco mais essa realidade e traçar soluções a médio e curto prazo, como forma de tentar mitigar os efeitos da baixa taxa de natalidade em seus países.

A Alemanha é um dos países que mais tem feito ações para tentar estimular o aumento da natalidade, há um bom tempo o país paga a “licença paternidade”, um benefício concedido ao pai durante um ano e meio, que auxilia nas despesas nos primeiros anos de vida da criança. Outros países concedem de forma gratuita o enxoval completo (mamadeira, leite, roupas, fraldas…), a Espanha tem criados estratégias como garantir a gratuidade completa do ensino básico, para crianças das quais os pais tiveram mais de dois filhos, além de incentivar as empresas do país a criar espaços de convivência para seus funcionários, com a intenção de estimular relacionamentos e, por conseguinte gerar filhos.

Entretanto, o surgimento da COVID-19 pode frustrar e muito os planos de aumento da natalidade na Europa. As incertezas quanto ao futuro do mercado de trabalho diante do prolongamento da pandemia, a crise econômica que se agrava em muitos países, e o acirramento da competitividade no mercado de trabalho, acaba inibindo muitas mulheres de levar adiante o desejo de ter filhos. Dessa forma, seria mais interessante que antes de pensar em criar estratégias para aumentar as taxas de natalidade, os governos desses países se preocupassem em garantir melhores condições de vida para população, promovendo ações que estimulem o pleno emprego, aliado ao aumento da renda.

A situação vivida hoje na Europa é muito peculiar, mas em poucas décadas pode afetar também países na América e na Ásia. Assim, fica evidente a necessidade de pensar em mecanismos que garantam melhor qualidade de vida para a população, sobretudo esclarecendo a importância do papel que cada um exerce na sociedade, e a importância da geração de filhos para o futuro de uma nação.

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Professor Jorman Santos:

1 comentário
  1. Beatriz Diz

    Excelente análise!

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