CPI da Covid: Bolsonaro beneficiou empresas de apoiadores para obter insumo de cloroquina, diz jornal

Revelação foi publicada hoje em reportagem do jornal O Globo

0

O presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), contatou o primeiro-ministro indiano, Narenda Modi, para acelerar a exportação de insumos para fabricação de cloroquina e citou o nome de dois laboratórios, segundo reportagem do jornal O Globo publicada nesta quinta-feira (10).

A informação consta em um telegrama secreto do Ministério das Relações Exteriores que está em posse da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado. O jornal teria tido acesso ao documento que contém a transcrição do telefonema de Bolsonaro a Modi no dia 4 de abril de 2020.

Segundo aponta o jornal, na ligação, Bolsonaro teria agido em favor de dois laboratórios privados, EMS e Apsen, comandados por Carlos Sanchez e Renato Spallicci, que são apoiadores do presidente. A ligação foi feita, pois em março de 2020 a Índia suspendeu a exportação de insumos de diversos medicamentos, por conta da pandemia de Covid-19.

De acordo com a reportagem, Bolsonaro deixa claro que o objetivo da ligação era obter insumos para fabricação de cloroquina, que não tem eficácia cientificamente comprovada contra Covid-19, porém, seria usada para combater a doença. Na época, ainda não havia estudos apontando para a ineficácia do medicamento.

“Entrarei diretamente no assunto. Embora não haja, por ora, divulgação oficial, temos tido resultados animadores no uso de hidroxicloroquina para o tratamento de pacientes com a covid-19. Gostaria, por isso, em nome do governo brasileiro, de fazer um apelo ao amigo Narendra Modi para que obtenhamos a liberação de importações de sulfato de hidroxicloroquina feitas por empresas brasileiras”, disse Bolsonaro, de acordo com a transcrição feita pelo Itamaraty e obtida pelo “O Globo”.

Bolsonaro citou laboratórios privados ao negociar insumos de cloroquina

Bolsonaro logo teria mencionado os dois laboratórios privados comandados por seus apoiadores.

“O sucesso da hidroxicloroquina para tratar a covid-19 nos faz ter muito interesse nessa remessa indiana. Estou informado de que um carregamento de 530 quilos de sulfato de hidroxicloroquina está parado na Índia, à espera de liberação por parte do governo indiano. Esse carregamento inicial de 530 quilos é parte de uma encomenda maior, e foi comprado pela EMS”, afirmou Bolsonaro, segundo a reportagem.

“Adianto haver, também, mais carregamentos destinados a uma outra empresa brasileira, a Apsen. Este, como eu dizia, é um apelo humanitário que submetemos a nosso prezado amigo Narendra Modi, e que, se atendido, poderá salvar muitas vidas no Brasil”, disse o presidente, de acordo com o jornal.

Questionados pela reportagem do jornal O Globo, os laboratórios Apsen e EMS disseram que “têm relação apenas institucional com o governo brasileiro”.

O envolvimento direto de Bolsonaro na negociação por insumos de cloroquina foi confirmado no depoimento do ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, à CPI da Covid. Além disso, no dia da ligação, o presidente publicou uma foto nas redes sociais ao lado do então chanceler. Então, dias depois, Bolsonaro fez outra postagem agradecendo a liberação dos insumos.

Veja Também:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.