Covid-19 pode se tornar endêmica no Brasil, como dengue e gripe

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Mais de um ano após ter começado, a pandemia de Covid-19 ainda não dá sinais de que vá acabar em pouco tempo. Menos ainda no Brasil, onde seu controle é ainda mais complicado, com vacinação lenta, queda da adesão às medidas preventivas e omissão de agentes públicos em implementar, divulgar, controlar e fiscalizar o cumprimento de normas de distanciamento social. 

Além disso, diversas variantes do novo coronavírus estão surgindo e se espalhando de forma rápida pelo país. Portanto, ainda que difícil de prever qualquer coisa neste cenário, especialistas acham que a doença se estenderá até 2022. Além do mais, acreditam que existem grandes chances da doença se tornar endêmica, assim como a gripe (influenza) e a dengue

Situações precárias no controle da pandemia

Para o médico epidemiologista Guilherme Werneck, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e professor do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IMS/Uerj), as condições para o controle da epidemia no Brasil estão muito precárias, por isso ela não deverá acabar logo.

“Faltam vacina, organização e liderança e sobra irresponsabilidade dos agentes públicos”, critica. “Começando pelas ações de desinformação do governo federal, questionando a efetividade de máscaras, vacinas e do distanciamento social, e estimulando o uso de medicamentos ineficazes para prevenção e tratamento da Covid-19. É possível, embora ainda num horizonte distante, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declare o fim da pandemia, mas o Brasil continue tendo que lidar com níveis inaceitáveis de transmissão”.

Erros que podem fazer com que a Covid-19 continue ativa

O médico Plínio Trabasso, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, também acredita que a epidemia de Covid-19 no Brasil ainda não vai acabar, principalmente porque a vacinação não está sendo feita de maneira maciça, ampla e consecutiva.

Desse modo, ainda existe um grande contingente de pessoas suscetíveis à doença em circulação. “Para um controle mais rápido, é preciso que mais pessoas (idealmente todos os acima de 18 anos) sejam vacinadas logo”, diz. “Isso cria uma barreira imunológica à disseminação do vírus”. De acordo com Trabasso, além da vacinação, é preciso testagem em massa, para identificar os potenciais transmissores e colocá-los em quarentena, e mais distanciamento social. 

“São as maneiras mais eficazes de conter a propagação da covid-19”, declara. “Claro que a higiene das mãos e o uso de máscara também são importantes, mas são medidas individuais, enquanto que a imunização e aplicação dos testes são ações de Estado”.

Mas por que algumas doenças se tornam endêmicas e outras, não?

“Uma enfermidade infecciosa endêmica é aquela que conseguiu um certo equilíbrio na sua taxa de reprodução”, responde Fredi Alexander Diaz Quijano, da USP. “Isto é, quando cada pessoa contaminada passa essa condição para (em média) uma outra. É o que se conhece como número reprodutivo efetivo (R), que é a média de novos infectados que alguém com o vírus produz diretamente, ou seja, no caso das endemias o valor de R permanece próximo de 1”.

Quando esse número é superior a 1, então a doença progride rapidamente e causa surtos (ou até grandes epidemias), como é o caso do novo coronavírus, cuja estimativa do R, no início da pandemia, era 3. “Se esse valor é muito superior a 1 (por exemplo, maior que 10) ela se espalha depressa, às vezes tão rápido que se acabam rapidamente as pessoas suscetíveis a ela”, explica. “Por outra parte, valores de R inferiores a 1 conduzem a que o número de casos progressivamente diminua, levando eventualmente à eliminação da doença numa comunidade”.

Foi o que aconteceu com a Sars: o vírus Sars-Cov-1 não adquiriu essa capacidade de se perpetuar. O novo coronavírus já obteve esse salto evolutivo, no entanto. É por isso, que os especialistas acham que a Covid-19 se tornará endêmica.

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