Como Black Mirror pode nos ajudar a repensar as relações virtualizadas

Toma-se, como exemplo, a análise da personagem Lacie, protagonista do episódio Queda-Livre, da série Black Mirror

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As obras de ficção científica, sobretudo as que abordam temáticas futuristas, sempre fizeram sucesso na indústria do entretenimento. Com essa mesma temática, a série inglesa Black Mirror tem conquistado inúmeros fãs desde o seu lançamento, em 2011. Devido a tal popularidade, a obra foi comprada pela plataforma de streaming Netflix, em 2015.

A diferença desta obra de Charlie Brooker para as demais séries da plataforma está no fato de que a serialidade é baseada na antologia, ou seja, cada episódio apresenta narrativas, personagens e enredos diferentes. Assim, estas podem ser consumidas sem a necessidade de seguir uma linha cronológica.

Os episódios dessa série são, portanto, peças unitárias construídas por meio do mesmo contexto norteador: a relação sombria entre seres humanos e tecnologia. Por isso, o título Black Mirror, em referência às telas de dispositivos digitais, como smartphones, tablets, televisores e computadores.

A sátira das relações virtualizadas em Queda Livre

No primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror, a protagonista Lacie Pound (interpretada por Bryce Dallas Howard) vive em uma realidade distópica em que as pessoas constantemente avaliam atitudes e aparências de outros indivíduos para, então, classificá-los em uma escala de 0 a 5. Cada interação é classificada pelas pessoas envolvidas na trama, isto se dá a partir de um aplicativo que sincroniza os dados por meio de lentes de contato com realidade aumentada. 

Apesar da abordagem estética futurística, a trama expõe uma relação não tão distante do que ocorre atualmente: a virtualização das relações e a construção da realidade cotidiana nas redes sociais. Tudo começa quando Lacie, classificada como 4,2, resolve investir em sua carreira. Para isso, ela percebe que precisa  aumentar a sua popularidade e ser classificada com, no mínimo, 4,5, para se qualificar a um apartamento novo e elegante.

Ela, então, dedica a sua vida a agradar as pessoas ao seu redor, com o objetivo de conseguir “likes” e aumentar a pontuação no sistema de avaliação vigente. Além disso, um convite inesperado para o casamento de uma amiga de infância – Alice Eve, que possui 4,7 pontos – surge como uma oportunidade para Lacie adquirir classificações melhores de alguns influenciadores que estariam presentes no evento. Porém, após uma série de incidentes, a protagonista recebe avaliações negativas que a colocam em um desfecho totalmente inesperado.

Todo o enredo nos é apresentado a partir de uma composição fotográfica elaborada em tons pastéis. Essa paleta é caracterizada por cores em alta luminosidade e baixa saturação. A suavidade do tom pastel é geralmente utilizada quando deseja-se ceder tons lúdicos e sofisticados ao ambiente. Assim, percebe-se que as cores despertam sensações diferentes emoções nos espectadores. Na narrativa audiovisual, por exemplo, servem ainda ambientar o enredo.

Entre as cores apresentadas em Queda Livre, destaca-se o rosa. Acredita-se que a opção esteja relacionada ao fato de que a personagem principal é mulher. Assim, o rosa estaria associado ao universo feminino, a inocência, a doçura e a empatia – características reforçadas pela ação e motivação da protagonista no enredo.

Fotografia do filme tem tons pastéis e o rosa como predominante. Imagens: Netflix – Black Mirror/Reprodução.

O sistema de classificação é apresentado ao espectador a partir da intertextualidade e referências com as redes sociais, como facebook, twitter e instagram.  Nesse episódio, as personagens agem de forma simpática e gentil umas com as outras, mas de uma maneira extremamente egoísta e forçada. Tudo isso é realizado apenas com o objetivo de melhorar suas próprias imagens e avaliações.

Outra crítica apresentada no episódio, e que também é amplamente discutida quando trata-se das redes sociais, é a construção da realidade virtualizada. No momento em que Lacie decide ser popular nas redes sociais, toda a sua vida começa a ser compartilhada e remodelada.

A personagem aprende a cozinhar, frequenta lugares diferentes e muda o visual apenas para publicar nas contas digitais e agradar seus seguidores. É neste momento presenciamos um dos pontos centrais da sátira: o narcisismo e o culto a estética que, consequentemente, nos afasta de “nós mesmos” e dos outros, tornando-nos escravos/prisioneiros da própria imagem que construímos. 

No caso do episódio Queda Livre, a personagem Lacie, além de fornecer vida aos conflitos e as propostas de narrativas da trama, trouxe a proposta de debater, citar, aludir e presentificar aspectos sociopolíticos da trama.

Com essas reflexões, entende-se que produtos audiovisuais são espaços importantes de representação e experimentação de imaginários sociais. Isso se dá a partir da oferta de diferentes propostas narrativas, ficcionais ou não, que fabricam, evocam e ressignificam as identidades culturais.

 

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