China divulga polêmico plano escolar para “masculinizar” meninos

O programa surgiu após o governo dizer que professoras e modelos da cultura pop ajudaram a tornar os meninos "fracos, afeminados e tímidos"

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Há cerca de duas semanas, a China anunciou um plano para atualizar as aulas de educação física para meninos e meninas nas escolas. O programa polêmico surgiu depois que um funcionário do governo disse no ano passado que professoras e modelos da cultura pop contribuíram para tornar os rapazes “fracos, afeminados e tímidos”. No entanto, segundo os críticos, a ideia mais rígida e conservadora de masculinidade do plano trará mais problemas do que benefícios.

Meninos chineses
Meninos são os principais alvos do novo programa de educação física nas escolas do governo chinês (Foto: reprodução)

O novo programa do Ministério da Educação da China visa “fortalecer o espírito e o físico” das crianças e dos jovens depois de ficarem “frágeis e inseguros”. Poucos detalhes foram revelados sobre o plano, mas foi especificado que mais professores homens de educação física serão contratados nas escolas de ensino fundamental e médio. Além disso, os métodos pretendem “desenvolver a masculinidade” nos meninos.

O programa nasceu em resposta a uma declaração de Si Zefu, um alto funcionário de um órgão composto por vários partidos e organizações chinesas. Para ele, era preciso “evitar a feminilização dos rapazes”, pois nos últimos anos as crianças se tornaram “fracas, afeminadas e tímidas tanto devido à grande presença de professoras, quanto por causa dos meninos bonitos da cultura pop”. 

Meninos “mimados”

Si Zefu também argumentou que os meninos eram mimados demais pelas mulheres de suas famílias e que alegam que não queriam mais se tornar heróis de guerra. De acordo com ele, essa é uma tendência que poderia colocar em perigo os cidadãos chineses.

O New York Times noticiou que nos últimos anos a mídia estatal chinesa tem falado de uma “crise de masculinidade”. Por exemplo, pelo fato dos jovens não se adequarem às carreiras militares por se considerarem “mais fracos”. Outro fator que teria tornado os garotos menos independentes e mais “mimados” – portanto menos “masculinos” – é a política do filho único. Em vigor de 1979 a 2016, a lei previa que cada casal só pudesse ter um filho, para evitar a superpopulação do país. A China tem cerca de 1,4 milhão de habitantes.

Em anos mais recentes, atores e grupos de boyband que tinham uma aparência elegante foram rotulados como “garotinhas”. Enquanto isso, por exemplo, em alguns programas de televisão da China, as orelhas de cantores usando brincos foram censuradas.

Ao mesmo tempo, o governo também incentivou por meio da mídia estatal a ideia de que os meninos deveriam se tornar “homens de verdade”. O argumento convenceu mais pais a matricular os filhos em treinamentos esportivos ou em campos de treinamento militar para meninos. Diante disso, um usuário da popular rede social chinesa Weibo escreveu: “é difícil imaginar que meninos tão afeminados possam defender o país quando uma invasão de fora se aproxima”.

Após a China proibir celebridades masculinas de usarem brincos em programas (eles são borrados na TV), um internauta pensou em fazer brincos pixelados para os meninos (Foto: reprodução)

Críticas

O anúncio do novo plano do governo gerou reclamações e amplos debates também em blogs e redes sociais. Na verdade, para os críticos, o programa é apenas mais um exemplo de como o governo continua a perpetuar estereótipos de gênero e discriminação sexual.

O plano não propõe explicitamente um tratamento diferente para meninas e meninos. No entanto, o especialista em saúde e educação sexual Liu Wenli, da Universidade Normal de Pequim, alerta para outro problema. Segundo ele, o programa pode levar a ainda mais casos de bullying relacionados à identidade, gênero ou orientação sexual de meninos.

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